cobiça e paixão

Quando me foi dado o tema Cobiça e Paixão, para associar ao conhecimento de Vedanta e porque são as palavras que os professores destacaram a partir dos textos anteriores que escrevi, duas sensações opostas me ocorreram: eles enxergam que nos meus textos e na minha vida predominam ou predominavam Cobiça e Paixão? E ao mesmo tempo pensei com humor: parece letra de música do cantor Wando, de título de novela mexicana. Passados esses primeiros pensamentos, entendi o quanto minhas experiências estavam sim associadas à Cobiça e Paixão e foi justamente o propósito de ir além desses experiências que me aproximou do conhecimento em yoga e de vedanta.

O desejo por segurança e bem estar, por bem viver é natural e genuíno a todos nós. Só que quando estamos envolvidos pela ignorância é comum priorizamos as impressões externas em lugar dos sentimentos mais individuais e introspectivos, a intuição, uma sabedoria que já parece estar lá, mas não acessamos; é natural termos uma forte motivação para ação de sobreviver e de se satisfazer e impressionar quem amamos através de conquistas e crescimentos ilusórios – de poder, de prazer, de status.

Esse comportamento nos coloca numa busca incansável por conquistar e acumular tudo que represente valor nesse universo físico, social, exigente e mutante. Conquistamos títulos de educação, bens que aparentemente nos confortam, nos trazem segurança, investimos em atividades que nos trazem paz, satisfação, bem estar, valores mensuráveis. São estados e sentimentos com prazo de validade e quando essas sensações se esgotam, buscamos desesperadamente maneiras de prolongá-las e repetí-las.

Há quem em algum momento, interrompa esses ciclos e se dê conta que essa busca externa não basta e é preciso mudar o ponto de vista, olhar para si e enxergar além; um momento de encarar a verdade de que os objetos não trazem felicidade; e se inicia um processo progressivo de discriminação sobre como obtenho essa paz e felicidade que já sou. Há também quem não enxergará essa possibilidade. E há ainda a chance de que mesmo quem inicia a busca pelo autoconhecimento, repita o mesmo comportamento viciado e cobice o conhecimento, um relacionamento especial com o mestre, uma conduta modelo que a qualifique diante do novo ambiente em que convive. O que não diferencia em nada da experiência anterior de preencher, conquistar e acumular para se sentir bem. Continua sendo uma repetição para satisfação da personalidade apenas.

Digo isso, porque num determinado momento da minha vida, me vi irreconhecível em essência e pesada e encoberta de todos esses artifícios que perderam completamente o sentido e me fizeram começar o resgatar o estado de espiritualidade em mim, porque pouco antes nos estudos védicos, de novo tive essa ilusão de que se tivesse uma vida confortável, saudável fisicamente, praticasse uma nova profissão que escolhi, estivesse mais próxima da minha família, estaria em paz. E mesmo com todas essas conquistas, quando decidi encarar minha personalidade com a verdade que a tradição propõe me deparei com alguém que desejava ardentemente ser aceita por essas pessoas que admirava pela jornada em yoga, pelo conhecimento e pela coerência entre o discurso e a prática na vida, e que eu compreendia absolutamente nada de yoga – embora me achasse um tanto esclarecida.

Foi preciso uma vontade intensa para o bem, uma paixão por esse conhecimento e por mim mesma para começar encarar todas as dificuldades, erros e desconstruções que acompanham a desilusão em si mesmo. Para abraçar o bom e o ruim da personalidade e para ir além dela. Para substituir o desejo ignorante pela vontade com propósito.

É preciso esse amor intenso, essa força arrebatadora, para a qual pode ser usada também a palavra paixão, para que haja um deslocamento de prioridade externa para interna, de mudança cognitiva, de conciliação entre os dois espaços aparentemente separados para entender a medida entre a saciedade dos sentidos, as necessidades físicas e para que o espaço potencial que se abre ao conhecimento no cotidiano, no coração, na mente se concilie naturalmente com a liberdade; para ter contato com movimentos da minha personalidade e continuar livre.

Progressivamente a gente tira a atenção dos objetos e ganha vida além deles, com eles, apesar deles. A cobiça se torna um desejo claro de viver em yoga, de viver coerente, de se libertar da insatisfação constante e viver apaixonada pelo propósito e não pelo resultado a ele atrelado.

É suficiente, é o bastante como ponto de partida para buscar também a compreensão e a experiência de ser absoluto a partir da presença relativa que estamos.

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Vedanta

Cavalo selvagem que
acredito que sou, troteio
ilusões, vagueio a mente.
Vedanta. Verdade. Om

Cego o ego para existir
através do Dharma. Existo
domada além de mim e sou
em mim felicidade.

Eu coro

Sou uma personalidade que coleciona – ou colecionava ; ) – antagonismos e desconstruções de fantasias diversas e sucessivas. E não foi diferente no encontro com Vedanta. Os primeiros contatos com o mestre, Jonas, me provocaram śrāddhā, uma sensação boa de familiaridade, conexão e confiança nele, mas também de insegurança em mim mesma sobre o caminho e o conhecimento a seguir – não que essa dissociação seja possível, agora entendo.

A insegurança em mim frequentemente se desdobra em medo ou surge dele e, mesmo com medo, poucas vezes deixei de avançar quando decidi que esse era o melhor movimento a fazer.

Tem uma força que me move, mesmo que não consiga racionaliza-lá. Virya. Ela me empurra, ainda que oscile. Mesmo que eu duvide, ela me contagia e se sobrepõe ao medo. Às vezes com mais velocidade, às vezes mais lentamente.

Virya e śrāddhā deram as mãos para que do meu jeito, eu tenha conseguido iniciar o contato com a tradição e com o conhecimento.

Comecei me identificando com a trajetória do Jonas, depois duvidei de um mestre tão jovem que dizia com tamanha clareza e de um jeito simples algo tão essencial que acreditei que já tinha ouvido numa doutrina anterior à Vedanta com a qual tive contato.

Por caraterísticas da minha personalidade, há alguns meses recuei na conexão com o mestre, baguncei a disciplina das práticas físicas de yoga, me distanciei um tanto do que me faz bem (alimentação, sono, atividades) e duvidei das minhas escolhas recentes de mudanças na vida – de cidade, de trabalho, de prioridades, de entendimentos.

Eis que na semana passada, coincidentemente, fiz movimentos corajosos de novo.

Uma tremenda e recorrente dor tinha tomado meu peito há dias, e por vezes descia até o estômago. Chorei sentindo solitude e desamparo, sentindo retrocesso em todo o processo de percepção, receando desperdiçar energia e tendo dificuldade em expressar amor pela vida que vivo.

Não é coincidência que a palavra coragem seja a soma de (corar, de coração, + agem, de agir). E que signifique também o efeito de corar ou ganhar cor e/ou oposto, branquear. Através do estudo da Ayurveda, conheci Hridaya que, em sânscrito,  é o coração profundo no peito como centro da consciência, da alma e da vastidão “que contém o universo”, da essência da vida humana. Um ponto precioso de terapias que acalmam as emoções.

Até hoje quando alguém me decifra ou acerta meu coração em cheio com palavras, intenções e ações, eu coro! Sim, minhas bochechas ficam rosadas se me sinto descoberta, numa feliz sensação de conexão com quem provoca meu coração.

Pois, então, semana passada a dor do peito transbordou em cor e em palavras, e consegui me reaproximar do mestre com humildade e humor. Me reaproximei também de mim com carinho. Com franqueza, respeito e espontaneidade; enxerguei um ponto de partida para indiretamente transpor a barreira que mentalmente criei entre ele e eu – eu e o conhecimento – e ter uma conversa que me fez brilhar na personalidade e no ser, que integra dois pontos determinantes nesse momento pra mim e agradeço ao mestre: a firmeza na tradição e o agir no que é necessário e essencial. Virya. ॐ

Montanha Russa

Depois de alguns anos de escassez, havia finalmente conquistado certa segurança e estabilidade material que me permitiam sustentar as responsabilidades com a minha vida e do meu filhote, custear a terapia que melhorou minha relação com os outros e os estudos de uma nova profissão; e na sequência também o acesso ao conhecimento de Vedanta. Uma falsa segurança que se revelou alguns meses após o início do contato com o conhecimento, onde embora os fatos e os sinais indicassem segurança, a mente insistia em projetar instabilidade.

A vida tem sido generosa comigo, embora eu anseie sempre por mais. Mas se entrasse também nesses desejos estaria trazendo Kama, Dharma e Moksha à companhia de Artha e não é esse o objetivo aqui. Artha é a busca por segurança, por firmeza em si mesmo – não na família, no trabalho, nos bens, nas relações, nas experiências, vale o reforço.

Mesmo com toda a generosidade que se apresenta, acabo voltando a atenção e o olhar para o que falta, o que não é de todo ruim. Há quatro anos, estava estável no trabalho e provendo minha família, que somos eu e Arthur. Segura e confortável numa casa com pomar e horta há três quadras da escola dele, onde podíamos dormir em saco de dormir no quintal há dois minutos de uma das avenidas mais movimentadas de São Paulo. Arthur estudava inglês, capoeira e guitarra. Eu fazia pelo menos uma viagem internacional por ano e ainda visitávamos a família em Santa Catarina e fazíamos um outro passeio de carro pelo Brasil nas férias escolares. Não éramos tão saudáveis fisicamente quanto eu gostaria (Arthur com as alergias e eu com as dermatites) e no peito, batia um coração desritmado e guiado por uma cabecinha de vento, confusa.

Lia Jung, Simone de Beauvior, George Orwell, Fritjof Capra, Hermann Hesse, Bukowski, Arthur Miller, Frederick Leboyer, Virginia Woolf, uma mistura de acadêmico, espiritualista, marginal, feminista, existencialista, físico, obstetra. Segurança intelectual. A cabeça leve deixou o coração excitado guiar e me inscrevi num Curso de Pós-graduação em Ayurveda.

Não conhecia absolutamente nada a respeito, não tinha formação prévia de conhecimento algum que se relacionasse – yoga, outros sastras, sânscrito. O mais longe que tinha ido era ler a “Autobiografia de um yogui”, frequentar as práticas físicas de yoga e a vontade adormecida de ter me graduado na área da saúde anos atrás.

Da segurança material para a insegurança total foi um instante.

Quanto mais me dedicava a Ayurveda com todos os colegas super preparados, as palavras em sânscrito, a familiaridade deles com as ervas indianas e práticas yoguis, mais me sentia aquém do que eles já sabiam. Insegurança mental. Quanto mais estudava, mais a clareza sobre a lógica da natureza se apresentava, intensificava as experiências com alimentos, especiarias e óleos em casa, mais resultados obtinha de equilíbrio físico e saúde. Curei as alergias e as dermatites. Segurança técnica e intuitiva praticada com informações e responsabilidade.

Nesse tempo, veio uma proposta de mudar o formato de trabalho de CLT para Consultora. Frio na barriga e insegurança material novamente. Nessa mudança, ganhei mais tempo com meu filho, para os estudos de Ayurveda e para iniciar as práticas e orientações como terapeuta. Ganhei mais tempo pra mim, disciplina, consciência financeira e uma estabilidade que independia de vínculo formal social e, sim, da confiança que defini comigo, com as pessoas e com as atividades. Segurança na realização, na rotina.

Que montanha russa! Essa firmeza vinha motivada às vezes pelos meus propósitos, às vezes pelas percepções que tinha do contato com o outro, com novas as atividades e situações. E resultava em realizar os desejos mais essenciais e sinceros, me fazia expressar amorosidade e sentir livre. Mas eu não sustentava a firmeza da mente e ela oscilava entre a busca de segurança, os questionamentos e os momentos de rara e real estabilidade.

Desde que iniciei o contato com o conhecimento há sete meses, estive atenta aos meus movimentos entre firmeza e hesitação e se configura cada vez mais clara a dependência harmoniosa entre Artha, Kama, Dharma e Moksha. Inclusive nos textos que escrevo aqui e o quanto alguns deles representam a tentativa de expor uma personalidade confiante, um desejo de estar segura no grupo e na percepção dos mestres, por isso faltaram neles espontaneidade, liberdade – agora me dou conta.

É uma boa novidade perceber na mente segura, o reflexo da confiança no conhecimento, a busca por satisfazer os bons desejos, por me deixar ‘descontrolar’ pela essência de ser e assim estar mais livre. Entender que a segurança em ser estanca o desejo sem propósito e traz uma tranquilidade de estar realizando o necessário, o essencial.

Tenho me permitido viver firme essa essência e aqui comigo sinto que esse ‘me permitir’ já é um ensaio de liberdade, é toda segurança necessária agora. A segurança e a liberdade dependentes recíprocas e motivadas por Kama em favor do Dharma. ॐ

O preço e o Valor

A figura do meu avô paterno, pescador semi analfabeto, pedreiro, mineiro de carvão, falecido justamente num momento em que estava resgatando a espiritualidade em mim, é sempre muito presente. Sem nunca ter saído de Santa Catarina, com um vocabulário restrito, falava e vivia o conhecimento contido nos clássicos. Católico, flertava também com as ervas e curas indígenas, benzia crianças cantando versos e rezas. Íntegro e franco nas relações com a natureza e pessoais, honesto no trabalho, simples nos hábitos e com um sorriso e um prazer imensos na vida, meu avô foi sensível e realista, desapegado do que não queria, responsável e amoroso com o que a vida propôs.

Nunca teve casa própria, carro, plano de saúde, andava muito mais descalço do que de qualquer outro jeito. Educou e criou 5 filhos biológicos e adotou uma afilhada, cuja família era ainda mais podre do que a dele. Ao final da vida, foi sustentado pelo meu pai.

Depois da morte dele, me dei conta de toda uma volta de anos, de países, de idiomas, de profissão, de acúmulos, de excessos, de relações tortas para chegar a um exemplo que estava disponível pra mim o tempo todo e não tive clareza para acessar. Trabalhei (e trabalho) muito, não dependo de outros para as minhas necessidades e futilidades, ganhei tanto, gastei tudo.

Com o nascimento do Arthur e a separação prematura do pai dele, essa obrigatoriedade de dar conta se tornou uma questão de honra. Hoje entendo que dinheiro, no meu caso, nutria meus papeis todos e obtê-lo era uma justificativa para retardar o contato com o conhecimento e a espiritualidade. Desde que sai da casa dos meus pais aos 16 anos, passei numa universidade federal e fazia dois estágios para me manter. O que não era suficiente.

Como profissional, quando mais ascendia, mais o personagem demandava investimento e me distraia. Consumia para me esconder sob as roupas, maquiagens, livros, filmes, peças de teatro, perfumes, restaurantes da moda, carro bacana. A maternidade agregou mais um papel e a maior das minhas cobranças: tinha que dar conta das minhas questões e das do Arthur. E dou.

O nascimento do Arthur e a morte do meu avô desencadearam uma revisão de prioridades: troquei os sapatos todos (cheguei a ter 120 pares! afe, nem centopéia precisa de tantos) por andar mais descalça; escolhi conhecer o Brasil com o filhote e mostrar os lugares das histórias do meu avô em vez das capitais cosmopolitas; o carro pela bike; os espaços gourmet pela horta e a comida feita em casa e os pic nics nos parques públicos, na praia; custear os estudos de uma nova profissão do coração.

Surpreendentemente, desde que me propus a esse resgate de mim mesma, ganho o suficiente para as responsabilidades e tenho certo tempo para os papéis e também para fugir deles ; ) sim, comecei a entender o valor que se dá aos recursos e ao que eles se destinam.

O orçamento é justo, as contas estão aí e as tenho honrado (escola, aula de música, uniforme, livros, casa, comida=saúde, transporte, um tico de diversão), porque ainda não consigo viver de luz, tampouco de favores, e desde que estamos nesse mundo, a troca é necessária e benéfica. Tenho exercitado também o escambo, na troca de valores, serviços, produtos, informações.

A espiritualidade e a prosperidade tem sido parceiras nesse caminho, e um certo tempo livre para uma maior dedicação e à transição de trabalho que desejo também começa a lhes fazer companhia. Essa segurança material permitiu uma serenidade para me dedicar às sutilezas essenciais. Reservo feliz um pouco de cada – dinheiro e tempo – para recompensar e agradecer a atenção e o conhecimento que, através dos mestres, Jonas, Edgard, Luciano, Denise, Flavia, Victor, compartilham e é de valor inestimável.

Quando ouvi a proposta de escrever sobre esse tema “O papel do dinheiro na espiritualidade”, pensei imediatamente no sistema Pague quanto puder/ Pague quanto acredita que vale. Pensei no meu avô que viveu a estabilidade de ser, mesmo com certa instabilidade de ter; que nunca foi rico, mas sempre foi nobre. Pensei num medo da escassez e de depender que ronda meus pensamentos com frequência.

O medo da falta: por que ele me faz duvidar de tempo em tempo? Por que uma velhice dependente e sem segurança material, como a do meu avô, me assombra? Por que eu quero trocar uma profissão próspera em desacordo com o meu propósito, por uma de realização que não faço ideia do que irá prover?

Há um preço que calcule o real valor do acesso à liberdade e à felicidade?
É certo que não, mas nas nossas convenções sociais, estimamos e acordamos um valor entre as partes que garanta o bem estar de quem está disponível para compartilhar uma preciosidade, como tem sido pra mim a tradição, Vedanta. ॐ

Ciranda

Meus pais tiveram histórias de vida muito diferentes antes de se encontrarem há 42 anos. Minha mãe tem descendência alemã, era luterana, de família tradicional, usava um vestido diferente a cada baile, frequentava o melhor clube da cidade, graduou em matemática e física e era professora universitária. Meu pai, filho de pescadores, católico e de família misturada de índios e portugueses, calçou sapatos pela primeira vez aos 11 anos, saiu de casa com uma mochila nas costas aos 16, para rodar o Brasil trabalhando e nesse trajeto conheceu minha mãe. Em seis meses estavam casados e dois anos depois, nasci através dessa dupla.

Meu pai só se graduou quando eu já tinha 5 anos, foi o primeiro dos 5 irmãos a ir além do segundo grau. E ajudou os demais que quiseram também estudar. Foi logo nessa idade que comecei a prestar atenção num comportamento entre eles em que meu pai depreciava minha mãe publicamente e agredia verbalmente às escondidas, ou nem tão às escondidas assim ( porque mesmo que fosse trancados no quarto ou tarde da noite, passei a me atentar a qualquer ruído e acompanhar as conversas). Ouvir e ver a maneira como ele a tratava me entristecia, angustiava e amedrontava. Minha mãe é uma mulher divertida, bonita, inteligente e “prendada” para usar uma expressão da época deles.

Me entristecia pensar que com tantas qualidades, meu pai precisava justamente expor e maltratá-la pelo que ele considerava defeitos (e nem tudo que ele elencava como defeito o era realmente, aos meus olhos de menina). Me angustiava que minha mãe não conseguisse reagir às críticas, se limitasse a baixar o olhar e a cabeça, e se esforçasse ainda mais para satisfazê-lo. Me amedrontava pensar que a violência verbal poderia se tornar física, que eles pudessem se separar, que meu pai também viesse a ter esse comportamento em relação a mim e a minha irmã. Me confundia sobre quem era meu pai: um cara honesto, batalhador, justo, simples, piadista, cheio de amigos, rico de histórias, amoroso, querido em tantos aspectos e com esse hábito de humilhar minha mãe.

Cresci sob a influência desse exemplo e fui sentindo o impacto dele no meu comportamento, na minha percepção de mim mesma e na relação com o alheio. Criei metas absurdas pra mim mesma na infância: era a melhor em esportes, premiada em redação, aluna nota 10, protagonista da peça de teatro, a menininha arrumadinha, educada, sensível, carente.

Já na adolescência, optei pelo vestibular de comunicação quando queria estudar medicina, por medo de não passar. Nos trabalhos, em geral, assumia duas posturas paradoxais – no meu auto-julgamento ou nunca era eficiente e competente o bastante, ou sabia mais e performava melhor que meus superiores e tentava provar isso em toda oportunidade de confrontá-los.

Nas relações sentimentais, experimentei extremos. Apaixonada me submeti a uma relação sem amor e a humilhações que me lembravam as memórias de criança. De novo apaixonada e ainda ignorante, conduzi um casamento com arrogância como forma de compensação da baixa estima.

Os anos foram passando e a sensação de inadequação e insuficiência perdiam para a preocupação com o julgamento alheio sobre mim. E eu seguia criando oportunidades e fatos que provassem o meu valor pessoal com trabalhos incríveis, viagens maravilhosas, amigos célebres, que reforçavam a falta de naturalidade de viver, o aprisionamento de quem eu sou naquela memória infantil, a dificuldade de criar empatia com figuras importantes, que significam autoridade (professores, superiores… ), o se expressar claro e eficiente somente através dos papéis, o jogo de esconder os defeitos, o receio em pedir e aceitar ajuda.

Cheguei ao limite e estou agora no resgate, trocando a farsa pela franqueza, aceitando e expondo os defeitos da minha personalidade, num relacionamento com a beleza desse espaço potencial que o conhecimento de Vedanta e a experiência em yoga tem apresentado. Meus pais estão juntos desde que se conheceram e hoje se divertem muito mais na companhia um do outro ( e eu me divirto com eles) e de quando em vez, sim, repetem aquelas cenas da minha memória. Aquela criança ainda me visita assustada com certa frequência, às vezes por instantes, às vezes por mais tempo, e em vez de lhe acompanhar na tristeza, no medo e na confusão como acontecia, já consigo brincar com ela. ॐ

tu não te moves de ti*

Quando ouvi a orientação para escrever esse texto que lês agora (relatar uma situação difícil e marcante da própria vida ou fictícia), me veio uma série de memórias emocionais desses 40 anos: o acidente de carro do meu pai na companhia de uma garota da minha idade (quando tinha 16 anos e ele, casado com minha mãe) que o deixou em coma, com sequelas pra vida e durante um bom tempo também um mal entendido entre nossa família; a mistura de felicidade e fragilidade no momento da separação do pai do Arthur, nosso filhote com 3 meses de vida, e o seguir sozinha com a responsabilidade cotidiana da maternidade; a síndrome de Guillain-Barré da minha irmã querida e saudável, que há 2 anos a paralisou e tornou completamente imóvel durante quase um ano e dependente da noite para o dia e me fez repensar a vida mais uma vez; e por aí vai.

Todas foram marcantes, mas de impacto passageiro. O que me fez escolher pela lembrança que conto agora é que ela continua presente e me acompanha desde os 23 anos. Desde criança, praticava dança e adorava. Cresci, comecei a jogar vôlei e performava bastante bem. Na escola, participava das Olimpíadas de atletismo – salto em distância, salto em altura, revezamento. Aos 23, comecei a sentir fortes dores no joelho direito – que primeiro foram diagnosticadas como inflamação (e engordei um tanto medicada com corticóides). As dores se tornaram constantes, agudas e tão fortes que me faziam transpirar e até me descontrolar – certo dia, joguei uma melancia pela janela do 3º andar sem olhar antes se havia alguém lá embaixo. Não acertei alguém. _/\_

Aos poucos, fui também perdendo o movimento do pé direito e manqueando. Já não dormia de dor; de medo porque não havia diagnóstico preciso mesmo com as tomografias, raios-X, ressonâncias, ultrassons; de preocupação porque precisava finalizar meu trabalho de Conclusão de Curso de Graduação. Foi um jovem neurologista recém-formado na França quem sentenciou que “só abrindo pra ver e talvez saber”. Tinham se passado 9 meses desde as primeiras dores. Feito, abrimos.

O que era pra ser um corte seguindo a dobra atrás do joelho, tinha se transformado numa cicatriz de 60cm pra retirar o neurofibroma que cresceu dentro do nervo ciático da perna direita. Nunca recuperei o movimento do pé direito e vieram o desalinhamento postural, a dificuldade de adaptação às próteses que seguravam o que os médicos popularmente chamam de ‘marcha de cavalo’ e as crises de vaidade. Cheguei a ficar quase 10 anos sem usar vestido, saia, shorts, biquíni morando em Floripa – uma ilha com 42 praias! Não aceitava essa nova condição, a maldizia e me escondia. Quando ouvia alguém falar a palavra manco, sentia dor no estômago, um incomodo. Não andava mais descalça, porque de chinelo ou sapato disfarçava melhor o caminhar.

Então devagar, a postura de inferioridade e a revolta deram lugar ao humor e a uma provocação comigo mesma e com os outros e me vi caminhando os primeiros passos com Arthur, caminhando novos primeiros passos, exibindo a cicatriz, explorando cavernas, descendo rapel, trilhando a Amazônia, aterrissando de balão em copa de árvore, caminhando pelo Parque Aconcágua, subindo no que chamam de topo do umbigo do mundo na Ilha de Páscoa, quase pisando numa cobra que cruzou meu caminho em um templo de Shiva na India.

O que mais tenho feito ultimamente é andar descalça.

E agora, quando escrevi manco no parágrafo acima, fiquei curiosa sobre o significado da palavra e no dicionário encontrei algumas definições: duro de inteligência, tapado, ignorante. Bem oportuna essa definição, para a lembrança que tenho de mim naquela época. Para o verbo mancar: fazer falta; faltar; falhar, em relação a compromisso; ser surpreendido. Sim, era absolutamente descomprometida comigo, esquecida de valores e alheia ao conhecimento que hoje são essenciais pra mim.

As dores posturais se resolveram com a prática de yoga. A cicatriz já não me incomoda tanto quanto a perda de massa muscular que não tem recuperação. Não consegui retomar o vôlei. O que ainda me acompanha é o olhar alheio para o meu andar diferente, um tropeço de quando em vez que me faz lembrar dessa minha imperfeição física diariamente e lidar tanto com a imperfeição, quanto com a expressão alheia sobre ela. É um bom exercício. E esse defeito já não é mais uma limitação, como foi. Meu andar me movimenta* de um jeito que é só meu num caminho de realização manco e tudo no todo. ॐ

* ‘Para onde vão os trens, meu pai? Para Mahal, Tamí, para Camirí, espaços no mapa, e depois o pai ria: também para lugar algum meu filho, tu podes ir e ainda que se mova o trem, tu não te moves de ti.’, Hilda Hilst que adoro em Tu Não Te Moves de Ti.

Leia também o texto de João Goulart publicado no Vedanta Online.